
1ª Teoria: o Estreito de Bering
Até pouco tempo, quase todos afirmavam que as primeiras comunidades humanas da América teriam vindo da Ásia, por volta de 12 000 a.C., saindo do atual território russo da Sibéria, atravessando o estreito de Bering (quem tem umas poucas dezenas de quilômetros de largura) e chegando à região hoje ocupada pelo Alasca. A partir daí, o povoamento fora se expandindo lentamen
te, primeiro pela América do Norte e, depois, pela América Central, para finalmente atingir a América do Sul. Os caminhos eventualmente seguidos por essas comunidades humanas, de um extremo ao outro do continente americano, podem ser acompanhados no mapa 1.Essa teoria baseava-se em um pressuposto, em um acontecimento físico-geográfico e em várias descobertas arqueológicas. Esses elementos podem ser resumidos como a seguir.
· Pressuposto. O homem primitivo era incapaz de desenvolver técnicas de navegação; portanto, não poderia ter chegado à América cruzando o Atlântico ou o Pacífico. Assim, só lhe restava um caminho: o estreito de Bering, com cerca de 100 km, que separa a Ásia da América.
· Acontecimento físico-geográfico. A glaciação-redução da temperatura da Terra-, entre 35000 a.C e 12000 a.C. Com a queda de temperatura, a massa de gelo polar aumentou e o nível dos oceanos abaixou. O estreito de Bering teria então ficado seco, permitindo a passagem dos seres humanos,a a pé, da Ásia para a América.
· Descobertas arqueológicas. Os vestígios humanos mais antigos encontrados em nosso continente datavam aproximadamente de 12 000 a.C. e foram descobertos na América do Norte. Os mesmos tipos de vestígios eram, na América Central, de aproximadamente 9000 a.C.; e na América do Sul, de 8000 a.C. na região dos Andes, e de 6000 a.C no atual território brasileiro.
Tais elementos davam a essa teoria um aspecto bastante lógico e, inclusive, indicavam o caminho seguido pelo homem até chegar a América do Sul. Ultrapassando o Panamá, ele acompanhara a cordilheira dos Andes, em direção ao sul e finalmente descera para as regiões mais baixas, a maior parte delas ocupadas hoje pelo Brasil.
Os especialistas respondiam que, de certa forma, era exatamente isso que havia ocorrido: as terras baixas tropicais eram inadequadas ao desenvolvimento humano; a densa floresta dificultava o deslocamento das pessoas e era pobre em recursos alimentares; as características do solo impediam a agricultura intensiva; e a uniformidade do clima dificultava a irrigação. Bastava ver, diziam, o atual padrão de vida das populações indígenas na Amazônia e mesmo no Brasil em geral. Comunidades pequenas e primitivas, vivendo da caça da pesca e, eventualmente, de agricultura itinerante.
Por causa desses fatores, os agrupamentos humanos que desceram dos Andes, em direção ao atual território brasileiro, teriam aos poucos perdido conhecimentos técnicos, tornando-se mais primitivos conforme se afastavam da região andina e se aproximavam do Atlântico. Ficava assim explicado o estado primitivo das populações indígenas encontradas pelos portugueses quando chegaram aqui.
As novas hipóteses
A partir de 1970, novos conhecimentos históricos e descobertas arqueológicas começaram a por em dúvida as antigas teorias, e hoje já se pode afirmar que, muito provavelmente, os caminhos do homem na América foram outros.
Primeiro, surgiu uma dúvida. A glaciação que pôs a seco o estreito de Bering fez a temperatura da região, que já era baixa, cair a níveis quase insuportáveis. Se o ser humanos primitivo foi capaz de criar técnicas para sobreviver nessas condições, por que não poderia também desenvolver meios de navegação.
Todavia, não se podia provar a incapacidade do homem daquela época para navegar, mas também não havia provas de que fosse capaz de fazê-lo.
Surgiu então um fato novo, numa região muito distante da América. Também se dizia que, na Austrália, o homem só chegara por volta de 7000 a.C., pois antes disso não conseguiria navegar até aquela ilha-continente. Porém descobriram fósseis nessa região de mais de 40 mil anos atrás.
Em seguida, mais descobertas arqueológicas. No sul da Argentina, encontram-se vestígios humanos de 10 000 a.C. No Brasil, então houve achados ainda mais interessante. Nos sítio arqueológico da Pedra Furada, no Piauí, descobriu-se um incrível acervo arqueológico que inclui centenas de pinturas rupestres, grande número de esqueletos e milhares de utensílios. As pinturas foram datadas em mais de 20 mil anos e os utensílios, em mais de 56 mil anos.
Todos esses fatos contradiziam a teoria clássica sobre a ocupação do homem a América e, por isso foram, durante algum tempo, rejeitados ou simplesmente ignorados pela maior parte da comunidade cientifica internacional. Segundo alguns cientistas europeus, a 1ª teoria continuava prevalecendo por causa do orgulho norte-americano. Pela teoria do Estreito de Bering, o Alasca, território dos Estados Unidos, teria sido o primeiro local habitado.
Nos últimos anos, porém, a respeitabilidade dos pesquisadores envolvidos, o constante surgimento de novos achados e a descoberta (em sítios arqueológicos nos Estados Unidos, Canadá, México, Chile e Brasil) de e vestígios humanos anteriores há 30 mil anos estão levando a uma revisão dos antigos conceitos, admitindo-se como hipóteses razoáveis que:
os primeiros grupos humanos teriam chegado à América entre 100 e 70 mil anos atrás;
as vias de acesso seriam tanto terrestres como marítimas, uma vez que o nível do mar variou durante as diferentes épocas e, em certos momentos, chegou até a 150 metros abaixo do nível atual, o que significa que um maior número de ilhas existia, tornando essas viagens mais fáceis para os meios tecnológicos existentes;
o povoamento da América do Sul pode ter sido simultâneo ou até mesmo anterior ao da América do Norte.


